Ele brinca com o vento, ele é o
Vento, ele provoca tempestades, ei-lo que levanta as Velas, revelando os
segredos dos corações. O mestre das fúrias cósmicas mantém-se de lado durante
todo o ensaio, não se mostra, põe-se em pé naturalmente, como uma coluna
mitológica no antro da música, veste, sobre o corpo de urso solar, uma camisa
xadrez de lenhador. Finge ser, discretamente, humano. Como todos os seres de
origem extranatural que vêm a nós misturar-se, ele tem a fala breve e codificada,
exprime-se disfarçadamente, derrama três gotas de suas torrentes. Ele ri, ele
ri-se. Gentilmente, discretamente, comporta-se como Gulliver em Lilliput,
reduzindo as suas colossais dimensões, para ajustá-las ao alcance do povo, às
mínimas humanas que ele acompanha. Ele se faz esquecer, é uma arte, e
substituir por elementos sonoros que lança profusamente aos sedentos de
sobrelevações e de profundezas que somos.
Numa noite de inverno, a
quinquagésima do Les Naufragés du Fol
Espoir (Os Náufragos da louca esperança), veio-me repentinamente a ideia de
ir da plateia, onde fiquei centenas de vezes, até à cabine de música onde o
mestre forja as suas vigorosas colorações fônicas. No meu devaneio de espectadora, esta caverna
fechada por onde passa, silenciosamente em meio ao alarido dos timbales, a
silhueta do mágico, era a cabine do Capitão Éolo, uma espécie de divindade
digna dos super-homens de Jules Verne. A Capitania, com as máquinas adiante, a
cabine de direção, a caverna, as entranhas. Segundo ele, o divino Éolo, eu
entrei no ateliê do guitarreiro. Deslizei por trás do
guitarreiro. Guitarreiro, segundo
ele, é uma espécie de lutador musical. Um leitor universal das músicas e das
línguas do mundo. Você entende? Bom, eu estava lá e tive a revelação. Eis o que
vi : vi que Jean Jacques Lemêtre, o titânico diabrete que encanta todos os
espetáculos do Soleil, não vê nada do que nós, o público, vemos. Da
anfractuosidade onde ele faz ribombar as suas rajadas inquietantes, nada se vê, a não ser uma estreita nesga
do palco onde o espetáculo se
desenrola. Dificilmente se entrevê alguns perfis de atores que por instantes
atravessam o campo visual. Não mais parei de me extasiar: mas nada se vê! Pois
você nunca viu este nobre e suntuoso objeto visível que seiscentas pessoas
contemplam todas as noites?! E batia na testa em seguida. Quão cega
você é! E eu, que não tinha visto, apesar de tantos anos de conivência, que,
naturalmente, necessariamente, ao Divino músico é impossível ver com os seus olhos. Pois que, tomando o lugar de
todos os sentidos, é o Ouvido que vê.
Esta música que dá alma aos corpos, que abre os espaços aos personagens, que
retrata os andares do céu e dos oceanos, que não tem sequencia, não copia, não
acompanha, singra adiante, desbrava, explora, oferece aos atores as imensidões
motoras que os elevam às esferas das transfigurações.
Eis como isto acontece : ele
faz tudo pelo ouvido. Como num sonho, os comediantes, antes de se lançarem no
desconhecido de uma cena, vêm, como frágeis Cristóvão Colombo criança,
confiar-lhe, em três trêmulas palavras, o rumo de suas ambições. Eles têm a fé
e a dúvida. Três palavras. Tão logo, Jean Jacques Lemêtre transforma-se no que
é em segredo : Sundog. Iça as velas: as suas fartas madeixas
mitológicas se sacodem como as crinas dos cavalos mágicos. Ele provoca uma
tempestade e transporta-os, os comediantes, mais
além. É essa a sua missão e o seu prazer, o segredo da sua força
inesgotável. – Quando os encaro, diz ele, não
estou ali. Estou em um alhures. A sua força é o olhar ao lado, e o tempo
todo. Ele percebe a sua origem no sopro :
– vejo-os respirar. Respiração – inspiração. Lança-se três palavras,
cinco palavras, como uma indicação, ou então como um certo título de Debussy: “
da aurora ao meio-dia no mar”, “diálogo ao vento”, “a oeste do fim do mundo”, e
o navegador magelânico se precipita. O comediante é magelânico : ele ousa
tomar os mares, mas é na rota da música interior, aquela que o abastece em
energias sobre-humanas.
O músico é um atravessa-fronteiras : ele sobe, desce a escada do tempo,
franqueia todos os meridianos, sobrevoa tanto a Turquia como a Nova-Guiné, faz
a sua coleta humana de uma música à outra, alado, guiado pelo amor da melhor
das « gentes ». Amar pelo ouvido, é receber sem qualquer embaraço,
tornar-se inteiramente esponja, absorver as ondas emitidas pelos inúmeros
instrumentos vocais, musicais, que acariciam o ar em torno dos continentes.
Ei-lo transformado em Holothurie, em
pepino dos mares que engole e regurgita os plânctons e os cantos das baleias.
Ele é o sobrinho-neto (por amor) desse fabuloso Satie que, aos quarenta e cinco
anos de idade, se diz : « Vou retomar as aulas de música - que digo – vou começar a aprender música! »
O mestre é aquele que começa todos
os dias a aprender música.
Genealogias :
Nunca se viu mais viajante, mais
chamado por todas as vozes do mundo. Ele tem a quem sair. Por seus ancestrais
adotivos, Debussy ou Chostakovitch, Wagner ou Brahms, Haendel ou Bach, Erik
Satie ou Monteverdi, ele tem, por herança, todas as trágicas e engraçadas
harmonias do mundo ocidental, nenhum livro de ouvido lhe é desconhecido. Por
seus ancestrais míticos, ele está aberto às milhares de línguas do universo,
ele entende-se tão bem com os aborígenes da Austrália quanto com Clément
Jannequin ou com os Ameríndios. Com o tempo, tornou-se guardião e memória dos
fonemas e sons das mil e oitocentas línguas cujas flamas hoje diminuem. Ele
tem, no ouvido, as vozes dos Micmac, dos Wendakes, dos Cheyenne, dos Mohawk,
dos Cree, dos Stravinsky… Seguindo a música índia, ele retorna à Pérsia.
Seguindo a música grega ele encontra-se em Katmandu. Musa e
museu, pastor e capitão dos mortos e dos sucessores, quando um dia a sua Viagem
o leva, com o Théâtre du Soleil, para além do além do fim do mundo, à beira do
Magelânia, o seu sonho é o de partilhar uma sinfonia de Chostakovitch com os
Alakalufes nus, os quais, pretende-se, não têm instrumentos musicais. Nisto ele
não pode acreditar. Com a equipagem do Soleil, ali foi ele descobrir a música
perdida dos Pré-históricos.
Quando esta música vem sublevar os
atores e alá-los, ela já chega de muito longe, elevou-se sobre outros
continentes, perfumada por oceanos, mas foi, sobretudo, engendrada pelo mestre
de Lemêtre, o Urgott, o Deus de
Antan, ninguém menos que Moondog, o órfão
gigante dos tempos mitológicos, aquele que, antes de desaparecer da face da
terra, foi depositado, por todos os gênios primeiros dos povos cantantes, na
esquina da Sexta Avenida, em Manhattan, sob a forma de um homem maior que todos
os transeuntes, cego coroado pelo capacete de aspas de Thor, o deus do trovão,
identificado como Louis Hardin, seu nome
comum, mas sendo, na verdade, o Mensageiro das Harmonias do Coração.
Quem vê Sundog Lemêtre vê a reencarnação derradeira de Moondog. É ele, o mesmo Ondin bissexual, a cabeleira em escumantes
cascatas, a mesma aparição da Força da Natureza. E, ao contrário do que se
poderia supor, ele assume tudo isso. Felicidade por ter sido o recipiendário
digno dos segredos do Clochard Céleste
(Mendigo Celestial) de Manhattan. O tesouro que se transmite de um planeta a
outro – à maneira da mística transmissão dos lamas tibetanos em constante
renascimento alhures – é a chama divina que se exala do harmonicamente correto.
Eis aqui uma música que escuta e compreende a nostalgia humana. Moondog terá transmitido a Sundog como pegar um ostinato e desenvolvê-lo: trata-se de
começar por algo incoerente e preencher todos os interstícios; saturar de vozes
o céu e a Via Láctea. O que parece, mas não é, simples repetição nesta música encontra
o seu poder enfeitiçante pelo ritmo.
E deste ritmo, Moondog e, em seguida,
Jean-Jacques Lemêtre encontraram o segredo tocando com os Índios. Quando as
vozes se estabilizam ritmicamente nas vibrações das percussões, a isto se chama
interpretação. . Eles compreenderam que o que nos perturba é o batimento do coração que se movimenta o tempo todo, estremecendo
com ligeiríssimas irregularidades, bem próximo da vida interior. É preciso
atingir o coração, a nota central da música. Encontrar, é a palavra. Encontrar
o coração ardente da história humana.
Hélène
Cixous,
21
de maio 2010
Nenhum comentário:
Postar um comentário