terça-feira, 5 de março de 2013

O SEGREDO DO ÚLTIMO DOS DEUSES (Hélène Cixous)



Ele brinca com o vento, ele é o Vento, ele provoca tempestades, ei-lo que levanta as Velas, revelando os segredos dos corações. O mestre das fúrias cósmicas mantém-se de lado durante todo o ensaio, não se mostra, põe-se em pé naturalmente, como uma coluna mitológica no antro da música, veste, sobre o corpo de urso solar, uma camisa xadrez de lenhador. Finge ser, discretamente, humano. Como todos os seres de origem extranatural que vêm a nós misturar-se, ele tem a fala breve e codificada, exprime-se disfarçadamente, derrama três gotas de suas torrentes. Ele ri, ele ri-se. Gentilmente, discretamente, comporta-se como Gulliver em Lilliput, reduzindo as suas colossais dimensões, para ajustá-las ao alcance do povo, às mínimas humanas que ele acompanha. Ele se faz esquecer, é uma arte, e substituir por elementos sonoros que lança profusamente aos sedentos de sobrelevações e de profundezas que somos.
Numa noite de inverno, a quinquagésima do Les Naufragés du Fol Espoir (Os Náufragos da louca esperança), veio-me repentinamente a ideia de ir da plateia, onde fiquei centenas de vezes, até à cabine de música onde o mestre forja as suas vigorosas colorações fônicas.  No meu devaneio de espectadora, esta caverna fechada por onde passa, silenciosamente em meio ao alarido dos timbales, a silhueta do mágico, era a cabine do Capitão Éolo, uma espécie de divindade digna dos super-homens de Jules Verne. A Capitania, com as máquinas adiante, a cabine de direção, a caverna, as entranhas. Segundo ele, o divino Éolo, eu entrei no ateliê do guitarreiro. Deslizei por trás do guitarreiro. Guitarreiro, segundo ele, é uma espécie de lutador musical. Um leitor universal das músicas e das línguas do mundo. Você entende? Bom, eu estava lá e tive a revelação. Eis o que vi : vi que Jean Jacques Lemêtre, o titânico diabrete que encanta todos os espetáculos do Soleil, não vê nada do que nós, o público, vemos. Da anfractuosidade onde ele faz ribombar as suas rajadas inquietantes, nada se vê, a não ser uma estreita nesga do palco onde o espetáculo se desenrola. Dificilmente se entrevê alguns perfis de atores que por instantes atravessam o campo visual. Não mais parei de me extasiar: mas nada se vê! Pois você nunca viu este nobre e suntuoso objeto visível que seiscentas pessoas contemplam todas as noites?! E batia na testa em seguida. Quão cega você é! E eu, que não tinha visto, apesar de tantos anos de conivência, que, naturalmente, necessariamente, ao Divino músico é impossível ver com os seus olhos. Pois que, tomando o lugar de todos os sentidos, é o Ouvido que vê. Esta música que dá alma aos corpos, que abre os espaços aos personagens, que retrata os andares do céu e dos oceanos, que não tem sequencia, não copia, não acompanha, singra adiante, desbrava, explora, oferece aos atores as imensidões motoras que os elevam às esferas das transfigurações.
Eis como isto acontece : ele faz tudo pelo ouvido. Como num sonho, os comediantes, antes de se lançarem no desconhecido de uma cena, vêm, como frágeis Cristóvão Colombo criança, confiar-lhe, em três trêmulas palavras, o rumo de suas ambições. Eles têm a fé e a dúvida. Três palavras. Tão logo, Jean Jacques Lemêtre transforma-se no que é em segredo : Sundog.  Iça as velas: as suas fartas madeixas mitológicas se sacodem como as crinas dos cavalos mágicos. Ele provoca uma tempestade e transporta-os, os comediantes, mais além. É essa a sua missão e o seu prazer, o segredo da sua força inesgotável. – Quando os encaro, diz ele, não estou ali. Estou em um alhures. A sua força é o olhar ao lado, e o tempo todo. Ele percebe a sua origem no sopro :  – vejo-os respirar. Respiração – inspiração. Lança-se três palavras, cinco palavras, como uma indicação, ou então como um certo título de Debussy: “ da aurora ao meio-dia no mar”, “diálogo ao vento”, “a oeste do fim do mundo”, e o navegador magelânico se precipita. O comediante é magelânico : ele ousa tomar os mares, mas é na rota da música interior, aquela que o abastece em energias sobre-humanas.
O músico é um atravessa-fronteiras : ele sobe, desce a escada do tempo, franqueia todos os meridianos, sobrevoa tanto a Turquia como a Nova-Guiné, faz a sua coleta humana de uma música à outra, alado, guiado pelo amor da melhor das « gentes ». Amar pelo ouvido, é receber sem qualquer embaraço, tornar-se inteiramente esponja, absorver as ondas emitidas pelos inúmeros instrumentos vocais, musicais, que acariciam o ar em torno dos continentes. Ei-lo transformado em Holothurie, em pepino dos mares que engole e regurgita os plânctons e os cantos das baleias. Ele é o sobrinho-neto (por amor) desse fabuloso Satie que, aos quarenta e cinco anos de idade, se diz : « Vou retomar as aulas de música  - que digo – vou começar a aprender música! »
O mestre é aquele que começa todos os dias a aprender música.
Genealogias :
Nunca se viu mais viajante, mais chamado por todas as vozes do mundo. Ele tem a quem sair. Por seus ancestrais adotivos, Debussy ou Chostakovitch, Wagner ou Brahms, Haendel ou Bach, Erik Satie ou Monteverdi, ele tem, por herança, todas as trágicas e engraçadas harmonias do mundo ocidental, nenhum livro de ouvido lhe é desconhecido. Por seus ancestrais míticos, ele está aberto às milhares de línguas do universo, ele entende-se tão bem com os aborígenes da Austrália quanto com Clément Jannequin ou com os Ameríndios. Com o tempo, tornou-se guardião e memória dos fonemas e sons das mil e oitocentas línguas cujas flamas hoje diminuem. Ele tem, no ouvido, as vozes dos Micmac, dos Wendakes, dos Cheyenne, dos Mohawk, dos Cree, dos Stravinsky… Seguindo a música índia, ele retorna à Pérsia. Seguindo a música grega ele encontra-se em Katmandu. Musa e museu, pastor e capitão dos mortos e dos sucessores, quando um dia a sua Viagem o leva, com o Théâtre du Soleil, para além do além do fim do mundo, à beira do Magelânia, o seu sonho é o de partilhar uma sinfonia de Chostakovitch com os Alakalufes nus, os quais, pretende-se, não têm instrumentos musicais. Nisto ele não pode acreditar. Com a equipagem do Soleil, ali foi ele descobrir a música perdida dos Pré-históricos. 
Quando esta música vem sublevar os atores e alá-los, ela já chega de muito longe, elevou-se sobre outros continentes, perfumada por oceanos, mas foi, sobretudo, engendrada pelo mestre de Lemêtre, o Urgott, o Deus de Antan, ninguém menos que Moondog, o órfão gigante dos tempos mitológicos, aquele que, antes de desaparecer da face da terra, foi depositado, por todos os gênios primeiros dos povos cantantes, na esquina da Sexta Avenida, em Manhattan, sob a forma de um homem maior que todos os transeuntes, cego coroado pelo capacete de aspas de Thor, o deus do trovão, identificado como Louis Hardin, seu nome comum, mas sendo, na verdade, o Mensageiro das Harmonias do Coração.
Quem vê Sundog Lemêtre vê a reencarnação derradeira de Moondog. É ele, o mesmo Ondin bissexual, a cabeleira em escumantes cascatas, a mesma aparição da Força da Natureza. E, ao contrário do que se poderia supor, ele assume tudo isso. Felicidade por ter sido o recipiendário digno dos segredos do Clochard Céleste (Mendigo Celestial) de Manhattan. O tesouro que se transmite de um planeta a outro – à maneira da mística transmissão dos lamas tibetanos em constante renascimento alhures – é a chama divina que se exala do harmonicamente correto. Eis aqui uma música que escuta e compreende a nostalgia humana. Moondog terá transmitido a Sundog como pegar um ostinato e desenvolvê-lo: trata-se de começar por algo incoerente e preencher todos os interstícios; saturar de vozes o céu e a Via Láctea. O que parece, mas não é, simples repetição nesta música encontra o seu poder enfeitiçante pelo ritmo. E deste ritmo, Moondog e, em seguida, Jean-Jacques Lemêtre encontraram o segredo tocando com os Índios. Quando as vozes se estabilizam ritmicamente nas vibrações das percussões, a isto se chama interpretação. . Eles compreenderam que o que nos perturba é o batimento do coração que se movimenta o tempo todo, estremecendo com ligeiríssimas irregularidades, bem próximo da vida interior. É preciso atingir o coração, a nota central da música. Encontrar, é a palavra. Encontrar o coração ardente da história humana.

                                                                                      Hélène Cixous,
                                                                                      21 de maio 2010 

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